Jorge Marra, suspeito de matar candidato a vereador em Patrocínio, é preso

O ex-secretário de Obras, que é irmão do prefeito da cidade, se entregou na tarde deste domingo (27) e prestou depoimento na Delegacia Regional. Defesa vai entrar com pedido de liberdade.

O ex-secretário de Obras de Patrocínio, Jorge Marra, autor dos disparos que mataram o candidato a vereador Cássio Remis, foi preso na tarde deste domingo (27) em Patrocínio. Ele se entregou na Delegacia Regional da cidade, onde presta depoimento aos delegados Valter André e Renato Mendonça.

Após ouvir o depoimento, a Polícia Civil realizou uma coletiva virtual com representantes da imprensa para repassar mais detalhes sobre. Participaram da entrevista o delegado Regional, Valter André; a delegada de Homicídios, Ana Beatriz de Oliveira Brugnara; e o delegado de Furtos e Roubos, Renato Mendonça.

Na entrevista, foi informado que após o depoimento Jorge Marra foi encaminhado para um presídio, uma vez que havia um mandado prisão preventiva contra ele. A unidade para onde ele foi levado foi mantido sob sigilo por questões de segurança.

O delegado Valter André revelou que foi feito um acordo entre a Polícia Civil e a defesa do suspeito para que ele se apresentasse de forma espontânea.

“A oitiva durou cerca de três horas e ele (Jorge Marra) cooperou com 99% das perguntas que os delegados fizeram. Nós demos oportunidade também para que os advogados fizessem perguntas para esclarecer alguns pontos que ficaram controversos”, declarou.

A delegada Ana Beatriz de Oliveira Brugnara relatou que ainda aguarda a finalização dos laudos perícias para definir se serão necessárias novas oitivas além das já realizadas até o momento. Ele revelou também em quais crimes o ex-secretário pode ser enquadrado.

“Nós trabalhamos com as hipóteses de roubo, homicídio com duas qualificadoras, sendo elas motivo fútil e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima e por porte ilegal de arma de fogo”, afirmou.

Os delegados foram questionados também quanto à não participação da defesa da vítima durante o depoimento. Foi informado à imprensa que a decisão de não permitir a entrada de ninguém ocorreu devido ao grande tumulto que se formou em frente à delegacia, mas que serão oferecidas informações sobre o depoimento e que a defesa poderá participar durante outra oitiva.

Pela defesa do suspeito, o advogado Sérgio Rodrigues Leonardo afirmou que tão logo Jorge tomou conhecimento que tinha uma ordem de prisão contra ele, a decisão foi retornar à Patrocínio, para se entregar, a fim de que a ordem fosse cumprida.

A defesa afirmou ainda que a medida foi tomada em respeito à Justiça e que, “com a apresentação o interrogatório, no qual ele respondeu as perguntas, fica evidente a desnecessidade da prisão preventiva”. Ele revelou ainda que Marra afirmou no depoimento ter agido em legítima defesa.

“Considerando que a prisão não é mais necessária, porque o fundamento da decisão que restringiu a liberdade era a fuga, vamos pleitear que ele seja colocado em liberdade”, completou o advogado.

Neste sábado (26), o G1 informou que a área de buscas pelo ex-secretário e irmão do prefeito de Patrocínio, Deiró Marra, havia sido ampliada até Uberlândia e também estendida até Brasília (DF). O mandado de prisão de Jorge Marra foi expedido pela Justiça na sexta-feira (25).

Segundo Mendonça, desde que o crime ocorreu na última quinta-feira (24), cinco testemunhas foram ouvidas e outras devem depor ao longo da próxima semana, entre elas, um ex-prefeito de Perdizes, que não teve a identidade informada, suspeito de ajudar na fuga de Jorge Marra. O delegado também informou que até o momento não está previsto depoimento do prefeito Deiró Marra.

O crime ocorreu na tarde da última quinta-feira (24) depois que Cássio Remis, 37 anos, fez uma live denunciando obras irregulares da Prefeitura. Jorge Marra apareceu e tomou o celular da vítima. Logo após, na porta da Secretaria de Obras, ambos discutiram e o então secretário pegou uma arma e atirou. Imagens de sistema de segurança registraram o crime.

Após o crime, Jorge Marra fugiu. A caminhonete usada na fuga e a arma foram encontradas nesta sexta-feira, no município de Perdizes. No mesmo dia, Cássio Remis foi velado na Câmara Municipal.

Ficha criminal

O delegado Renato Mendonça informou que a arma usada por Jorge Marra era registrada, mas ele não tinha licença para portar o revólver. Falou também que o ex-secretário tem passagens pela polícia por dois crimes ambientais e, apesar de relatos de que ele andava armado, não tem nenhum nenhuma denúncia sobre agressão ou ameaça.

“A polícia já havia recebido várias denúncias contra a Prefeitura, muitas delas feitas pelo Cássio envolvendo irregularidades administrativas, como o uso de equipamento público para obras particulares. Mas, como são crimes administrativos e não crimes do código penal, não abrimos inquérito. Os casos foram levados para o Ministério Público”, contou.

Investigação

As imagens que mostram o momento em que Jorge Marra atira contra o candidato a vereador Cássio Remis foram apreendidas pela Polícia Civil para investigação. O delegado informou que pediu a prisão preventiva do autor dos disparos e já ouviu algumas testemunhas. No fim da tarde, a Justiça decretou a prisão.

“O que chama mais atenção e não é possível ver pelas câmeras, mas foi relatado por testemunhas, é que depois que a vítima foi alvejada pelas costas e caiu no chão, o autor ainda dá mais três tiros, o que é considerado execução”, relatou.

A perícia constatou que Cássio Remis foi atingido por cinco disparos.

Pai desabafa sobre crime

Cássio Remis foi eleito vereador em 2008, e presidente da Câmara em 2013/2014. O político exerceu dois mandatos consecutivos 2009/2012 e 2013/2016.

“Sempre atendeu principalmente as pessoas mais simples e pobres. E hoje foi, sem farda, covardemente morto por esse grupo que administra a cidade. Infelizmente, é até inadmissível numa cidade como Patrocínio as pessoas usarem da força pra que possa dominar todas as pessoas”, disse Marcos Remis, pai da vítima.

Ele também contou que o filho foi o vereador mais novo na história política da cidade e tinha uma longa carreira pela frente.

“Dedicou a vida inteira a essa causa. Não teve infância, não teve balada, só se dedicava à política. E tinha, na verdade, pretensões futuras que eu tenho certeza que o horizonte já havia aberto pra ele. Talvez seja esse o motivo pra que eles pudessem ter assassinado de forma brutal e desleal.”

Cássio Rémis já foi vereador de Patrocínio e havia se candidatado para as eleições de 2020 — Foto: Reprodução/Facebook

Cássio Rémis já foi vereador de Patrocínio e havia se candidatado para as eleições de 2020 — Foto: Reprodução/Facebook

Homicídio

Cássio Remis foi assassinado por volta das 15h30 de quinta-feira (24). Antes de morrer, a vítima estava na Avenida João Alves do Nascimento mostrando o processo de revitalização quando alegou na transmissão ao vivo que funcionários da Prefeitura eram usados para fazer serviços particulares em frente a uma residência que seria o comitê de campanha do atual prefeito, Deiró Moreira Marra.

Nesse momento, o assassino saiu de um veículo, tomou o aparelho da vítima e voltou ao carro.

Segundo o tenente-coronel Salomão Queiroz Caixeta, em seguida Remis foi atrás de Jorge Marra, que se dirigiu à Secretaria de Obras. Na porta do local, o candidato tentou pegar o telefone de volta, mas Marra atirou e fugiu.

A live de Cássio Remis foi postada por volta depois das 15h. Leia abaixo e assista ao vídeo que a vítima publicou em rede social antes de ser morta.

“Boa tarde. Estamos aqui na avenida que está servindo para reforma e, para nossa surpresa, mas não para nossa estranheza, nós nos deparamos desde ontem com um arsenal de funcionários da Prefeitura sendo utilizados para fazer o calçamento de onde possivelmente será o comitê eleitoral do prefeito (…). Isso mesmo, funcionários da Prefeitura, maquinários da Prefeitura, com (…). Agora eu pergunto para vocês moradores dessa avenida, quantos de vocês tiveram a condição de ter esse asfaltamento aqui. Ninguém. Aqui, agora chegando o secretário para me agredir”.

Após o encerramento da transmissão ao vivo, Remis foi atrás de Jorge Marra. Em seguida, o crime ocorreu. Diversas pessoas foram para o local acompanhar o trabalho da polícia.

Coletiva da Prefeitura

Por volta das 17h30, o prefeito de Patrocínio falou com a imprensa e afirmou que ele não teve relação com a discussão entre Cássio e o irmão. Além disso, Deiró Moreira Marra rebateu a crítica feita pelo candidato a vereador durante a live.

Veja abaixo trechos da coletiva:

“Quero inicialmente dizer que nós estamos, de forma muito consternada, com tudo que aconteceu, com dor e com muito pesar que a gente percebe isso. Lamentamos tudo que aconteceu e essa sequência de fatos absolutamente injustificáveis, que culminaram na morte do vereador Cássio Remis por disparo de armas de fogo, infelizmente pelas mãos do meu irmão, Jorge Marra. Esperamos que todos os fatos sejam elucidados e apurados de forma transparente pelas polícias, com a mais absoluta isenção de tudo isso. É um fato que choca todos nós. Digo aqui que todas minhas diferenças de campo político sempre foram resolvidas através do debate, jamais tive qualquer atitude fora desse campo. Infelizmente não conheço e não sei de nenhum fato e de nenhuma ação que culminou nessa tragédia, mas posso aqui externar minhas condolências à família do vereador Cássio Remis. Em consideração ao posto que ele ocupou e sua trajetória estamos decretando luto oficial por três dias”, disse aos jornalistas.

Acusação durante a live

“Reformar os passeios é uma questão trivial, não tem nada a ver”, frisou o prefeito em entrevista. Deiró disse que o ex-vereador era adversário dele e fez várias acusações, “todas infundadas”. “Mas nós transformávamos isso no debate político”, ressaltou.

Crime

Ainda com relação ao crime, o prefeito pediu que a Justiça possa apurar todas o fato. “É uma tragédia, não tem e nunca terá minha aprovação. Isso não tem campo político nenhum para ser para ser explorado. As consequências que culminaram nessa discussão será elucidada. Quero tranquilizar a população que a gente não participa dessas atitudes”, destacou.

“Esperamos do fundo do coração que Deus possa dar muita paz e tranquilidade para nossas famílias, em especial tanto a nossa quanto a do ex-vereador, que possam ter tranquilidade para superar tudo isso. É uma tragédia. Decretei luto oficial”, acrescentou.

Trabalho na Prefeitura

Na ocasião, o prefeito também disse que não acredita que a situação possa afetar a continuidade do trabalho dele na cidade. “Quem conhece o Deiró sabe que tenho uma tranquilidade pessoal muito grande, fui por várias vezes”, concluiu.

G1

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